o dia que ele mais gostava

o dia que ele mais gostava

 25 de Abril

25 de Abril

Daqueles oito anos de convivência, guardo a memória do velho que me fazia companhia depois da escola, que tinha um sorriso e um gesto sempre gentil (ok, também recordo de o ver refilar, mas sempre com os outros, nunca comigo). Eu era uma criança e ele um velho (sim, porque naquele tempo quem tinha mais de 60 anos era um velho). Conhecemo-nos quando nasci e ele tinha já 74 anos. oito anos depois, despedimo-nos. Depois vieram as histórias sobre ele (e a minha memória viu-se invadida por factos, mas também por neblinas que nunca sei se são factos ou criações minhas - a memória é um arquivo muitas vezes irreal).

É um facto que não sofreu horrores, os horrores que outros heróis sofreram. Mas, à sua maneira, resistiu e lutou contra um regime que nunca foi o dele. Foi apenas mais um comunista de convicções (as insinuações que desde então ouvi de outros, com outras convicções, sobre ele são factuais e não criações).

Das histórias que ouvi, a que me marca diariamente relata que ele foi cedo, madrugada ainda, ou noite até, para a porta da junta da freguesia aquando do recenseamento eleitoral, tal a ânsia de exercer um dos maiores direitos da liberdade: o povo é quem mais ordena (o facto comprovado é que, muitos anos mais tarde, verifiquei: era o número 1 dos cadernos eleitorais, apesar de já se ter despedido de nós há mais de 10 anos).

É esta história que me lembra, sempre, que a liberdade conquistada e os direitos adquiridos também me dão deveres e obrigações. Cidadania é mais do que uma nacionalidade e os direitos que ela me dá.

É esta história que me lembra, sempre, que ser livre é ter, além do direito, o dever: de votar, de pensar, de falar, de criticar, de elogiar, de participar!

É esta história que me lembra, sempre, que ser livre é uma condição que me foi oferecida por outros e, como tal, também outros me podem retirá-la - se eu me demitir de usufruir dos meus direitos e de exercer os meus deveres.

Hoje é o dia da liberdade, o dia que ele mais gostava desde que o povo saiu à rua e a reconquistou naquele abril de 1974. E só quem vive em liberdade é livre de escolher.

(E é porque sou livre que escolho usar o sobrenome que ele me ofereceu, como que em jeito de o lembrar sempre, a ele e também aos outros que me deram a liberdade)

que seja sábado

que seja sábado

romance vertical de couves pato

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