Como assim, um fim?

Ontem, esta miúda, a minha miúda, disse que tudo tinha um fim.

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Permitam-me discordar completa e absolutamente desta frase.

O hóquei feminino tal como o conhecemos (as equipas mistas depois dos 13 anos de idade) começou com ela. O que andámos, o que mudámos. Caramba, até são permitidas equipas mistas em seniores!
E isso não se apaga com o descalçar dos patins. Mais do que um fim, esta miúda foi, e será sempre, o princípio da mudança e da construção da realidade de hoje.

Porque sei o que é ser maria-rapaz numa aldeia onde todos jogam hóquei, menos a maria-rapaz. Porque a vi com a força e a vontade necessárias em contrariar isso, em não ceder, em lutar pela paixão pelo jogo, em viver os sonhos, em jogar com o seu destino.

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Porque a acompanhei na ansiedade que a cada dois anos espreitava, na espera pelas decisões dos outros que lhe decidiam o futuro. Porque a vi vestir outras camisolas sem nunca tirar a paixão pelo preto e branco do coração.

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E se ela viveu bem esse sonho! E jogou com a vida, e em rinque, como poucos!

Qual fim, qual quê! Como é que se decide o fim de uma paixão que faz parte de nós? :)

Quanta admiração. Quanto orgulho.
Quando for grande, quero ser como tu, Sofia! 

# as minhas primas são as melhores

#asminhasprimassãoasmelhores

Durante uma semana, tuitei isto todos os dias. Juntei-lhe o desejo de boa sorte, a certeza de que o sucesso faz parte do caminho delas, os parabéns nas vitórias e a confiança no futuro nas derrotas.

Durante uma semana sonhei enquanto elas jogavam e acordei com a ansiedade de saber delas, do que tinham conquistado, das alegrias que tinham vivido.

Porque a família dos afectos é tão importante como a de sangue, habituei-me desde sempre a estar por perto. A ver a cumplicidade delas nos olhares, nas alegrias, nos sorrisos e nas birras!
E habituei-me a tê-las por perto, na vida e nas brincadeiras com as máquinas fotográficas que fui usando para registar a vida.

E, depois, crescemos. Elas dentro de rinque e eu a fotografar hóquei em patins. Parecia a combinação perfeita, não fosse o detalhe de eu viver do outro lado do mundo e, apesar do vício na modalidade, não conseguir ver um jogo de hóquei em patins feminino (*).

E é exactamente por isso que tanto admiro o que elas conquistam, todos os dias (confesso que esta admiração já começou com a Sofia :)).

E elas sabem do que falam quando dizem que sou a fotógrafa particular delas: eu só vejo e fotografo hóquei em patins feminino por elas (**).

Se em miúdas era a doçura delas que prendia a minha lente, hoje é a competência em rinque que prende o foco das lentes e se agarra à memória das máquinas.

O raio das miúdas têm 17 anos e são vice-campeãs do mundo. VICE-CAMPEÃS DO MUNDO. Quem é que se atreve a dizer que elas não são as melhores? Pois que são! 

(No dia em que eu souber como se define o que se sente para lá de orgulho, eu aviso-vos ;))

 

Se quiserem saber mais sobre elas, leiam-as aqui, que vale muito a pena.
(*) Não tem nada a ver com o direito delas a jogarem o jogo da vida delas (se nunca me tivessem obrigado à Patinagem Artística talvez eu hoje ainda conseguisse andar em cima de uns patins por mais de dois segundos). 
(**) Metam lá a Sofia, a Alice, a Rute ou a Rita, e eu também apareço!
[A foto de capa é da Inês e da Cláudia]

E no fim, ganham os melhores

Há uma semana, a equipa que melhor hóquei jogou, que mostrou mais alegria em rinque e que deu mais espectáculo no jogo, sagrou-se campeã.

Não foi um jogo de nervos, foi um jogo de querer, de humildade, de destino. Porque é o que eles, atletas, e o que a modalidade deles, hóquei em patins, sabe fazer: vencer.

E se há título merecido e conquista justa, é esta. Se há equipa que o merecia, era esta. Os que estavam em rinque e os que estávamos cá fora a perder a razão e a voz. A ser consumidos por um acreditar sem limites, por eles. Neles. 

Pedimos-lhes o título. Eles deram-nos muito mais. 
Ou vocês não repararam na forma como os golos foram festejados ao longo de seis jogos?

Ou naquele momento em que o Capitão de agora se junta ao de antes para que juntos, porque só juntos se alcançam os sucessos, a taça subisse finalmente nas mãos da equipa que a merecia?

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Ou nas lágrimas que lhes vimos ainda durante e após o jogo? São de quem valoriza a vitória que o trabalho conquista e agradece o título com a humildade de campeão.

Obrigada, Comendadores. Vocês são os melhores!

PS: o sonho continua ;)

"Ninguém gosta de hóquei em patins" dizem eles,
"Gosto eu", respondo com o orgulho de quem faz parte da modalidade.